IPCA + 8%, e a barra que encolheu
O título promete te devolver a inflação. Falta combinar qual inflação ele enxerga.
Você comprou a mesma barra de chocolate de sempre. Mesma marca, mesma embalagem, quase o mesmo preço. Só que ela está mais fina. Em algum momento, sem aviso, tiraram alguns gramas e apostaram que você não ia reparar.
Às vezes nem é o tamanho. É o que tem dentro. A manteiga de cacau vira gordura vegetal, o chocolate fica ceroso, e o preço continua lá, firme.
Existe nome pras duas coisas. Reduflação quando encolhe, qualiflação quando piora. As duas são a mesma jogada: você paga o mesmo e leva menos.
Guarda essa barra na cabeça. Ela explica o título mais comentado do mês.
A promessa que parece à prova de bala
Na semana passada, um título público do governo passou a pagar mais de 8% ao ano acima da inflação. Não 8% no total. Oito por cento além do que a inflação corroer, todo ano, garantido em contrato.
Parece o fim da conversa sobre risco. Se o medo é a inflação comer o seu dinheiro, aqui está um papel que promete devolver a inflação inteira e ainda empilha 8% por cima. Blindado.
Quase.
A promessa diz “inflação mais 8%”. A pergunta que quase ninguém faz é a única que importa: qual inflação?
Qual inflação ele devolve
O índice oficial mede o preço de uma cesta. Ele anota quanto custou a etiqueta.
O que ele tem dificuldade de capturar é exatamente a barra que encolheu e o ingrediente que foi trocado.
A sua vida não é uma cesta fixa.
É o pacote que veio com menos, o serviço que ficou pior, a fila que aumentou, o plano que cobriu menos pelo mesmo boleto.
A corrosão que você mais sente no fim do mês é, em boa parte, a que o índice captura pior.
Então o título cumpre o que prometeu. Ele te devolve a inflação que foi medida.
A reduflação e a qualiflação escapam pelas bordas, e escapam justamente porque são desenhadas pra escapar.
Você recebe a barra. Só que a régua que mede a barra também não viu que ela encolheu.
Por que isso não é acidente
Aqui o leitor costuma pular pro lugar errado: “o Brasil vai quebrar, vão dar um calote”.
Não é esse o risco, e entender por que muda tudo.
Calote, no sentido de tribunal, é o que acontece com quem deve numa moeda que não consegue fabricar. Não é o caso daqui.
A dívida brasileira é quase toda interna, em reais, a moeda que o próprio governo emite. Ninguém dá calote naquilo que pode imprimir.
Por isso a porta de saída nunca foi o tribunal.
A porta histórica é mais silenciosa: deixar a moeda perder um pouco no caminho, manter o juro real honesto no papel e poroso na vida real.
Você recebe cada real de volta. A pergunta nunca foi essa. A pergunta é o que aquele real vai comprar.
E os 8% reais não são generosidade. São uma confissão.
Um governo paga tão caro pra tomar emprestado quando o mercado desconfia de quanto, lá na frente, aquele dinheiro ainda vai valer.
O que realmente muda
Nada disso quer dizer “fuja do título”. Provavelmente é o instrumento “menos ruim” que o Brasil oferece hoje: pelo menos ele se ancora em alguma coisa, enquanto a poupança e o prefixado prometem um número e te deixam sozinho com a inflação.
O perigo não está em ter. Está em ter achando que é blindagem total.
“Protegido da inflação” merece um asterisco. E o investidor que conhece o asterisco decide diferente de quem só leu o número.
Talvez o exercício deste fim de semana não seja correr pra travar os 8%.
Seja parar de ler “inflação mais 8%” como uma garantia de poder de compra, e começar a ler como o que de fato é: uma garantia contra a inflação que alguém, do outro lado, concordou em medir.
O governo não vai te dar um calote. Vai te entregar a barra mais fina, na mesma embalagem, e contar com você não reparar.
Você confere o peso da sua?
Forte abraço e bons investimentos,
Bernardo Sader · Sócio-fundador | Livrato Capital


Ponto de vista perspicaz e honesto meu velho. Se pudesse dar uma sugestão, diria para fazer uma parte dois falando da inflação pelo aumento da base monetária também. O combo: preços maiores, mais dinheiro circulando e perda na qualidade/quantidade. Lendo esse artigo isso me veio a cabeça. Abs.